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Devo, não nego. Pago quando puder.

Aula
Sei que estou em dívida com o meu blog. Novembro foi o mês em que menos postei (fora setembro, quando eu nem tinha acesso a computadores…), e me envergonho disso. Mesmo o pouco que postei foram textos escritos há tempos. Quando criei este espaço, a idéia era publicar alguma coisa todo dia, e durante algum tempo cumpri com a minha determinação. Mas agora a coisa meio que degringolou.

Por quê? Não é certamente por falta de acesso a computador, agora que eu tenho um, de teclado normal e tudo. Nem, garanto, por falta de assunto. Muito pelo contrário, os temas se amontoam e eu não escrevo sobre eles. Já tive ímpeto de falar sobre as eleições brasileiras, que acompanhei à distância, mas acompanhei, a ponto de ter uma opinião (aleluia!). Quis discorrer sobre a alimentação na França, sobre os desperdícios que tão bem caracterizam o nosso Brasil, sobre a vida com quatro estações muito bem determinadas, sobre uma teoria meio idiota que desenvolvi para explicar a existência de uma bebida como o vinho, e assim por diante.

Mas não escrevi. Tornei-me talvez um preguiçoso? Não, isso é o que eu era antes. Não sou mais, muito pelo contrário. A instituição tão brasileira da faxineira (aquela que vem uma vez por semana em casa (ou até mais) e em troca de uns duzentos reais (até menos) deixa tudo impecável, arruma os armários e ainda faz comida congelada para os sete dias que correrão), isso não existe neste continente de bem-estar social. Os empregos (tanto públicos quanto privados) em que você fica horas sentado diante de um computador esperando alguma coisa para fazer mais ou menos bem feito, isso tampouco é concebível nesta terra em que um funcionário é caro e a exigência enorme. Mas, o mais importante de tudo, nosso “prato típico”, ou melhor, nosso tipo típico (para tentar ser engraçadinho) é algo que não dá nem para explicar para meus colegas daqui.

É claro que estou falando do “professor picareta”. Conto nos dedos a quantidade de professores que tive no ensino superior brasileiro (e olha que freqüentei por períodos mais longos ou mais curtos três diferentes faculdades paulistanas, todas com um bom nome a defender) capazes de escapar a essa classificação. O que é lamentável, mas compreensível, pelo fato de que os alunos não querem nada de diferente, uma vez que só estão nos cursos atrás de seu diploma. Ao mesmo tempo, as próprias direções das faculdades não têm incentivos para mudar o quadro, já que a concorrência tampouco é brilhante; por sinal, as notas dos estudantes tendem a ser mais altas sob professores menos sérios. É assim que se cria aquela famosa descrição dos professores que fingem dar aula para alunos que fingem estudar. Isso não é lenda.

Apesar de todos os defeitos da educação francesa, assunto para (hélas!) outro texto (se eu conseguir voltar ao meu ritmo normal), uma coisa deve ser sustentada: todos os professores, os meus pelo menos, levam a sério seu trabalho. Eles são, de fato, professores. Preparam suas aulas, conhecem seus assuntos, respondem às questões, planejam o semestre. Os alunos, que na maioria dos cursos nem sequer passaram por um processo de seleção, também têm uma atitude séria, pelo menos em sua maioria. Apesar de sempre haver os relapsos, a maioria é de gente que espera tirar alguma coisa dali, e não estou falando de um diploma ou uma lata de cerveja, estou falando de conhecimento.

Lembro-me das minhas aulas no Brasil, com professores discorrendo sobre a morte da bezerra, provas de múltipla escolha, alunos querendo de alguma maneira saber antecipadamente o que vai cair nas provas, choros para conseguir meios-pontos salvadores. E, o que me parece mais grave, docentes contratados em tempo integral por faculdades públicas (ou seja, sustentadas por impostos) mas que jamais aparecem para dar aula, passam o dia todo dedicando-se a suas consultorias e coisas do gênero.

Por isso, pela primeira vez na vida sinto-me uma pessoa ocupada. Preciso estudar verdadeiramente para não passar vergonha nas provas, ao passo que no Brasil bastava passar os olhos pelos manuais, os malditos manuais, que a aprovação era certa. Preciso anotar cuidadosamente o que os professores dizem, ler todos os livros indicados (centenas), entregar trabalhos em profusão e assim por diante. Dá trabalho, mas você aprende. Além disso, preciso manter a casa limpa e com uma razoável provisão de comida, ainda que seja enlatada, preciso correr atrás de algum trabalho para não me ver daqui a alguns meses com os panos dos bolsos virados para fora. Preciso fazer toda uma série de coisas.

Ocupado, eu! Quem diria… Nem no trabalho eu era assim, salvo em alguns momentos de pescoção, que podiam ser diários, semanais, mensais… Mas que nunca duravam muito. É por isso que estou em dívida com o blog. Mas não quero que isto pareça uma queixa. Um milagre também se opera: apesar de eu estar muito mais ocupado com as coisas centrais da minha vida, a ponto de não dar conta de tudo (freqüentemente falta comida e às vezes eu só consigo terminar um trabalho na hora mesmo de entregar), pouco a pouco estou me adaptando a esta nova realidade e começo a conseguir fazer todas as bobagens periféricas que marcavam minha vida no Brasil, entre elas escrever este blog (não que eu o considere uma bobagem… mas dá um certo efeito dramático). Sinto que isso é um crescimento.

Talvez eu consiga abordar os assuntos que ficaram para trás em novembro. Quem sabe? Mas uma conclusão eu já tirei: comparando o dia a dia dos sistemas educativos do Brasil e da França, começo a entender por que, com toda sua caducidade, seu aperto, suas cretinices, seus inúmeros defeitos, a velha Europa continua sendo rica, e o Brasil, com toda sua pujança, todo seu território, todo o seu vigor e a criatividade do seu povo, continua sendo miserável. E fico triste, nem consigo dizer quão triste eu fico. Sei que nosso país poderia ser a menina dos olhos deste planeta. Mas não é.

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8 comentários sobre “Devo, não nego. Pago quando puder.

  1. Kalinka disse:

    Bom dia em Portugalpenso que também bom dia em Paris,hoje – dia 2 descobri o seu blog e gostei muito do que li. Realmente a sua vida se transformou numa vida muito mais ocupada, sem dúvida, pois uma pessoa a ter que cuidar de si mesmo, com casa para arrumar, cozinhar, e tempo para estudar e fazer todos os seus trabalhos de equipa de estudo…as 24 horas do dia são muito poucas.No meio de tudo fez a comparação do sistema educativo do Brasil e da França, é isso que dá, quando queremos alargar nossos horizontes e decidimos ir estudar para um outro País e este sendo na Europa.Muito se aprende e, depois pode-se fazer as comparações de forma justa, pois é você mesmo que está a vivenciar toda essa mudança na sua vida.Boa sorte para os estudos.Beijo.

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  2. katyane disse:

    oi paulo,também gostaria de escrever todos os dias, ou pelo menos toda semana. mas, … vc tem sorte com os professores. não posso dizer o mesmo de mim. boa sorte no estudo. bjs.

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  3. Guilherme Roesler disse:

    Paulo, tempo é um problema.Ainda mais quando se quer escrever posts longos como este.Ou paramos o que estamos fazendo para escrever ou não escrevemos.Blogs são uma boa invenção, mas que ns toma um bom tempo, ah! isso tomam.Abraços, Guilherme

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  4. Dácio Jagger disse:

    Diário cheio de esquisitices, um blog escrito por adolescentes, por pessoas mal-amadas, índívíduos sem caráter é um repositório de besteiras, menos por quem ali descarrega suas angústias. Paulo, a necessidade de pessoas trazerem suas experiências para um meio como este seu blog é interessante sob bons e vários pontos de vista. Um deles é que ouvir os relatos de uma vivência é como se estivéssemos junto da pessoa que viajou e ficamos de ouvidos atentos, curiosos, saboreando as coisas diferentes no estrangeiro.Bom te ler por isso, mesmo que não possas estar quase diariamente aqui, pela sua capacidade de análise e pela forma contundente leve de contar seu dia a dia./Abração

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  5. Merivaldo disse:

    Registro aqui meu abraço ao irmão das letras estejam elas onde estiverem.Ora, ora.Mesmo quando o texto cresce desprentensioso, percebe-se que não dá PARA LER SEM OLHAR com alegria.abraços,.

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  6. Rodolfo disse:

    Fala! Tudo bom? Passei pra dar notícias, não que esteja preocupado, mas sumi e nem comentei mais. E devo dizer, não foi por falta de tempo.Realmente, o ensino aqui é bem fraco, infelizmente.Abs,;)

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  7. Jinx disse:

    O tempo pode ser traidor… uns dias passa tão rápido que não conseguimos fazer tudo que queremos, outras vezes damos voltas(mesmo que parados) para arranjarmos “coisas” para fazer… pois, agora tens um teclado QWERTY… ehehehe… quanto aos posts, deixa simplesmente fluir. não te preocupes se uns meses saem textos, e outros não… não compreendo muito da minha mente mas sei que é normal… todos criamos projectos,para cumprir, ou melhor, ir cumprindo… deixa-te envolver na cidade luz… abraço…

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