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Uma noite em branco

Nuit%20blanche Crédito da foto: Brent Townshend

Chega de reclamações, senão vou passar por chato. Já estou vendo gente dizer que eu não me contento com nada, que nem às margens do Sena consigo estar alegre, que só falo de computadores estranhos e burocracias que não funcionam (ah, ainda não escrevi sobre isso? Escreverei). Então este espaço, hoje, estará reservado ao elogio e à expressão das alegrias que Paris pode nos oferecer.

Pois esta cidade, se de um lado tem AZERTY, dossiês cheios de papel e os aluguéis mais desumanos do planeta, também tem a Nuit Blanche. É difícil descrever o que acontece pelas ruas parisienses quando museus, teatros, igrejas, praças, em suma, tudo, atravessa a noite com exposições, concertos, manifestações de toda espécie e, principalmente, um mundo de gente na rua. Mundo de gente, mesmo. Gente de todas as partes, idades, “tribos” (odeio essa expressão!), orientações sexuais, e por aí vai. Gente que vai de um canto a outro atrás do que parece interessante, gente que ocupa as ruas até não mais caber, gente que entra e sai das estações de metrô.

Sim, a virada cultural de São Paulo é vagamente inspirada na Nuit Blanche de Paris (e Madrid, Lisboa e mais meia dúzia de cidades). Mas é qualquer coisa de muito diferente. O clima é outro. Os participantes não são heróis corajosos como no Brasil: são apenas gente em seu curso natural da vida. Famílias, casais de idosos, adolescentes, turistas. Não existe a mesma campanha da mídia e da prefeitura para incentivar as pessoas a achar aquilo a quintessência da vida cultural. É apenas evidente. Algo que se faz.

É mesmo uma delícia traçar rotas para a noite. Um concerto em Notre Dame às 19h? Dá tempo de sair e pegar uma exibição de filmes africanos no Marais? O que tem em Clemenceau? Céus, o Louvre é gratuito até a meia-noite!

E toca para o Louvre. Quando ele é gratuito (como todos os museus da cidade), no primeiro domingo de cada mês, é simplesmente impossível entrar. A fila dá a volta na pirâmide e sobe em si mesma, depois serpenteia para fora de Paris e chega a alguns metros da Brandenburger Tör, em Berlim. Mas não na Nuit Blanche. É possível até ver a Mona Lisa, e não apenas relanceá-la. Isso significa muito, embora as três ou quatro camadas de vidro blindado entre seu rosto e o tal sorriso enigmático tornem a contemplação da obra em si não muito diferente de uma ilustração de livro. Decepcionante, sim, mas são as agruras da vida contemporânea.

O mesmo não acontece com a Vitória de Samotrácia, ali no meio de uma escadaria, disponível a quem quiser chegar perto e contemplar suas formas esvoaçantes. As grandes obras se sucedem sem tempo para recuperar o fôlego. Eros e Psyche entre o Lançador de Disco e alguns imperadores de Roma. A Vênus de Milo saindo do banho há milênios, sem braços mas também sem gavetas. Competindo com as obras de arte, o próprio edifício, recheado de afrescos e arabescos em ouro.

Mas os funcionários são públicos e, para piorar, são franceses. Dá meia-noite e eles querem ir embora. Colocam todo mundo na rua, não sem antes apagar as luzes. Tive medo de tropeçar em alguma divindade helênica mas, ufa, graças a Deus não causei esse prejuízo à humanidade (nem perdi o direito de ficar na França).

Expulsos do gigantesco museu, o que fazer? Depois de andar quilômetros e quilômetros, de dia e de noite, pelos bulevares e avenidas, não queremos mais saber de caminhar pelos corredores das expedições. Que tal ir para casa, tomar um vinho que compramos, um Petite Récolte delicioso da Nicolas, melhor rede de loja de vinhos da França, que custou a enormidade de 2 € (o preço de uma Coca-Cola, mas sem a gastrite), mais o queijo que estava em promoção? Boa idéia, a não ser que haja alguma apresentação de jazz ou um grande pianista. Investiguemos na brochura.

Nada de jazz. Por outro lado, um teatro alternativo perdido no meio do nada tem o palco aberto para artistas desconhecidos que queiram mostrar seu trabalho. Além disso, no subsolo alguns pintores underground (sem trocadilhos, por favor) expõem o que de mais recente produziram. Que tal? Excelente, vamos embora.

Saindo do metrô, surpresa: o mesmo mundo de gente que ocupava as calçadas da Rue de Rivoli se dirige para eventos como o nosso. O movimento é contínuo. O teatro é interessantíssimo, vetusto, pequeno, com seus pilares de madeira e suas cadeiras de veludo. A exposição dos artistas underground é negligenciável, e no palco dois cantores, uma violoncelista e uma harpista executam grandes clássicos da música pop norte-americana feita nos últimos três ou quatro anos. Nada contra os americanos, mas não é o que buscamos numa Nuit Blanche. Some-se a isso o fato de que franceses têm uma dificuldade enorme com a língua de seus vizinhos além-Mancha, mais o fato de que nem nessa noite especial os burocratas do metrô estenderam o horário além do normal (1h da manhã). Melhor dar a noite por encerrada.

Mesmo assim, é uma noite para não esquecer. Um grande Bienvenue à francesa, mostrando por que eles têm tanto orgulho (até arrogência) da cultura de seu país e sua capital. Estar no meio de uma grande massa humana cuja ligação maior é o interesse pelo que está acontecendo em volta, trocar informações com desconhecidos na rua, enfiar-se por teatros e galerias desconhecidos e meio obscuros, nada disso tem preço. Para fechar o pacote, a noite estava uma delícia, um frio aceitável até para mim, que tenho uma dificuldade enorme de aceitar o frio; a iluminação reforçada, salientando os muros dos palácios e as marolas do Sena; a lua cheia, como que dando sua bênção.

Depois disso, posso dizer que vale a pena se enfronhar por toda a burrocracia dos descendentes de Descartes. Agora chega de elogios!

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7 comentários sobre “Uma noite em branco

  1. michele disse:

    Por favor desconsidere o comentário acima imediatamente.Achei que havia acessado o blog de um amigo que está prestes a operar sua catarata. Peço-te perdão pelo ato.Estou aqui para agradecer sua gentileza em minha estação. Espero de verdade que não suma de lá por causa disso.Permita-me deixar um abraço carinhoso.

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  2. Joana Rosa disse:

    Essas crônicas de viagem são tão convincentes que quase estou acreditando que você está em Paris.Quando sair do hospital, por favor, passe no Pão de Açúcar da Alameda Santos (Rive Gauche) e compre um camembert e um bom vinho de sua preferência. Deixa que eu encomendo os croissants e os patês. Também vou pegar um filme para assistirmos. Você prefere Godard ou Truffaut?

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  3. Paulo Osrevni disse:

    Oi Joana! Particularmente prefiro Truffaut, mas se você preferir Godard, pode ser também. Mas não estou em condições de freqüentar o Pão de Açúcar, que a grana não dá. Vou de Ed mesmo. Quanto ao vinho, dá pra comprar uns muito, mas miuto bons, e bem baratinhos, na Nicolas (já falei da Nicolas, né? É porque é demais, mesmo). Mas pelo amor de Deus não proponha assim publicamente uma sessãozinha dessas, que eu vou ter que dormir no sofá a semana inteira!

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  4. Ricardo Reis disse:

    Tem nego bebo aí, tem nego bebo aí…Aliás, Paulão, que papo é esse de Zoropa? Pára com isso que domingo tem churrasco na casa do Cabeça. Me dá carona?

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