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Da ausência de amor próprio

Podem me chamar de chato, mas tem coisas que me deixam vivamente impressionado. Uma delas é a falta de amor próprio manifestada nas enormes filas que se formam diante de coisas ruins, eu diria péssimas, como é o caso de alguns cinemas, parques e até padarias. Explico.

Na semana passada, fui com minha namorada jantar com um casal de amigos dos tempos de faculdade. Comemos em um restaurante delicioso, do qual falarei algum dia na seção gastronomia. Ao final, a parcela chocólatra do grupo inventou de caminhar até uma famosa, famosíssima padaria distante algumas quadras, no sentido da av. Paulista.

Eu não conhecia a tal da padaria (não sou chocólatra, e pelo visto a última coisa que a casa oferece é pão), então me interessei pelo programa. Lá fomos nós, por aquelas ruas mal iluminadas da região da Consolação, desviando dos buracos na calçada e dos automóveis daltônicos.

Chegando à famosa, estupenda, imperdível padaria, cujo nome não vou mencionar mas é óbvio para quem conhece, deparamo-nos com uma fila quilométrica. Eu disse uma? Erro meu. Eram várias. Uma para as mesas. Outra para os pedidos. Mais duas para pagar. Se bobear, até os banheiros tinham fila. Não sei, não fui.

Um resumo do lugar: os funcionários não tinham interesse em trabalhar. Ficavam discutindo a família de sei lá quem, e respondiam às perguntas dos clientes com grunhidos. Os doces, péssimos. Meu amigo pediu um, não sei o que era, mas na vitrine era lindo. Na mão, era oco, literalmente. Por dentro, só ar. O preço, lá em cima, naturalmente. As tais filas não andavam, os corredores eram estreitos e vamos parar por aqui que a idéia não é falar mal da bela padaria.

A questão é psicológica: por que tanta gente bem de vida, jovem, bonita, que estudou nos melhores colégios de São Paulo, que pode ter tudo que quiser, quando quiser, onde quiser, como quiser, vai ficar horas parado numa fila para sentar num lugar apertado, ser maltratado por funcionários, consumir produtos de baixa qualidade, sofrer esbarrões, e assim por diante?

Eu poderia gastar laudas e laudas discutindo esse ponto, apenas para chegar a uma conclusão: não sei. O fato é que me parece uma falta muito grande de amor próprio. Seria o complexo de vira-latas do Nelson Rodrigues? Possível. Seria uma forma de ostentação, uma forma distorcida, segundo a qual ser maltratado para gastar muito dinheiro seria chique? Não sei. Seria uma forma de autoflagelação, uma punição imposta a si mesmos como paga por toda a exploração e escravidão que perpassou a história do Brasil? Não sei. Seria apenas cafonice? Provavelmente.

Nessas horas só nos resta recorrer a Jung e sua idéia do inconsciente coletivo. Milhares de pessoas são levadas por um impulso inexplicável e irresistível a postar-se umas atrás das outras, esperando sei lá o quê, após vestir-se com suas melhores roupas e raspar as embalagens da maquiagem, no caso das mulheres. Alguma coisa no fundo de suas cabeças, alguma coisa que não se consegue investigar, empurra suas mãos para dentro da carteira, pagando com alegria por produtos e serviços de péssima qualidade e um serviço deprimente.

Fica uma sugestão a nossos psicanalistas; uma verdadeira pesquisa de campo. Muito mais fértil e interessante que esses consultórios insossos.

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9 comentários sobre “Da ausência de amor próprio

  1. katy disse:

    vai ver é porque eles são:”gente bem de vida, jovem, bonita, que estudou nos melhores colégios de São Paulo, que pode ter tudo que quiser, quando quiser, onde quiser, como quiser”.vai explicar né?!!!bjs.

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  2. antoniocicerodasilva disse:

    É isso, meu caro amigo, existem coisas e ocasiões, que nos deixam com os nervos a flor da pele. Mas, fazer o que, né?Abraços e muito te agradeço, pelo comentário… Obrigado…

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  3. MadalenaBarranco disse:

    Caríssimo Paulo, muito prazer em conhecê-lo!Adorei ler sua crônica sobre “o amor próprio” – escrever sobre isso é uma forma de ajudar as pessoas.Aproveitando, agradeço sua gentil visita ao meu blog prestigiando minha pequena homenagem ao Dia do Escritor. Seja sempre bem-vindo!Abraços e obrigada.

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  4. Anonymous disse:

    Parece o meu marido falando. É a pessoa mais anti-fila que eu conheço. Não entra numa nem por nada: uma única exceção talvez seja fila de embarque no avião. Nem cinema, nem restaurante, nem teatro, nem banco, nada o faz entrar numa fila.

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  5. Anonymous disse:

    Talvez as pessoas se aglomerem em filas na Bela Paulista porque na madrugada a Kopenhagem não fique aberta!!!!!!!!Simples assim. Cada um tem seu vício, cada um com seus pobrema.

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  6. Alexandra disse:

    “Nessas horas só nos resta recorrer a Jung e sua idéia do inconsciente coletivo. Milhares de pessoas são levadas por um impulso inexplicável e irresistível a postar-se umas atrás das outras, esperando sei lá o quê, após vestir-se com suas melhores roupas e raspar as embalagens da maquiagem, no caso das mulheres. Alguma coisa no fundo de suas cabeças, alguma coisa que não se consegue investigar, empurra suas mãos para dentro da carteira, pagando com alegria por produtos e serviços de péssima qualidade e um serviço deprimente.Fica uma sugestão a nossos psicanalistas; uma verdadeira pesquisa de campo. Muito mais fértil e interessante que esses consultórios insossos. “Só para dizer que ADOREI! Cá também temos do mesmo… os famosos pastéis de Belém …Excelente post!

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  7. Cris disse:

    pô, eu adorei a bela paulista. quando eu fui não tinha fila, não. o que eu comi lá tava bom. mas eu tenho “pobrema” de cabeça, paulo. devo ter caído quando era pequena e batido com ela no chão. dano irrecuperável. só isso explica.:o) bj

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  8. Palpiteira disse:

    Fila é sempre deprimente. Ter pique para se arrumar, se maquiar, se perfumar, pra ficar plantada numa fila, seja para o que for, é coisa de pobre. Estrela não fica em fila nunca. 😉

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