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Voltando àquele assunto desagradável

Onibus 0
A coisa engrossou de novo em São Paulo, e de novo o Lembo atacou com “está tudo sob controle” e o Alckmin com “a polícia paulista tem padrão europeu”. É evidente que ambas são mentira, mas cada uma de maneira diferente: a frase de Lembo é um paradoxo: como pode estar tudo sob controle se está tudo absolutamente descontrolado? Em situações sob controle, cidades de 11 milhões de cabeças não ficam sem transporte público.

Já o candidato xuxu-nas-nuvens não fez nada mais que seguir a eterna tradição paulista de megalomania cega. Um exemplo: recentemente uma amiga minha que se formou na veneranda academia do Barro Branco, que forma nossos PMs, me contou que para sair da escola ela teve que dar menos de 200 tiros. Não estou falando de tiros em pessoas, que os policiais paulistas têm oportunidade de sobra de dar depois que chegam às ruas. Eu me refiro a tiros de treinamento, contra alvos parados ou em movimento. Em suma, aqueles que ensinam os futuros profissionais a lidar com revólveres e munição.

Duzentos tiros, cabe informar, não ensinam ninguém a atirar. No máximo dão uma noção do coice da arma, da posição correta para segurá-la e assim por diante. mas numa situação de verdadeira necessidade, em que é necessário reagir rápido contra criminosos no meio do caos urbano, o policial precisa ter movimentos automáticos e um auto-controle supremo, caso contrário poderá atirar antes da hora e ainda acertar civis.

Isso não é um padrão europeu.

Outro que não é padrão europeu é o de fuga das cadeias. (0,13, ele disse?) Em primeiro lugar, esse número é difícil de ser apurado quando não se consegue nem controlar quem entra e quem sai das prisões, nem muito menos quantas pessoas estão em lugares como a tal cadeia de Araraquara (cada órgão cita um número diferente). E como São Paulo tem metade dos presos do país, certamente o índice de fuga é maior do que o número de presos de alguns Estados.

Mais uma falácia prepotente do nosso antigo governador é a louvação da tal cadeia de Presidente Bernardes, a “única de segurança máxima” do país. Tudo bem, é possível que seja mesmo, mas não tenho dúvidas de que possa existir segurança maior do que a de uma cadeia cujos presos comandam os crimes que acontecem do lado de fora, usando celulares, rádios ou o bom e velho bate-papo com advogados. Já seria um bom começo se ela não estivesse sempre em rebelião.

* * *

Mas chega de falar mal dos nossos políticos, porque isso todo mundo faz o tempo inteiro. Vamos falar mal de nós mesmos! Que tal? Um sujeito que estava no supermercado da rua Maria Antônia (Higienópolis), atacado de madrugada, assumiu o mais sério dos tons para informar que estamos no meio de uma guerra civil não declarada. Já ouvi essa declaração uma centena de vezes, mas desta vez resolvi me perguntar:

Estamos mesmo?

O que constitui uma guerra civil? No meu entender, esse apelido só pode ser agregado a uma situação em que uma determinada sociedade, em geral um país, se cinge em dois partidos (não no sentido político, claro), irreconciliáveis, e cada um toma em armas para impor sua opinião e aniquilar o outro. Mas isso se dá por meio de uma organização formal visando uma constituição posterior legal do Estado, com o vencedor à testa. Exemplos claros são a Guerra Civil Espanhola, a Revolução Francesa, a Russa, a Americana e assim por diante.

Não é isso que acontece no Brasil. Os bandidos, sejam os traficantes do Rio, sejam os presos de São Paulo, sejam todos os outros grupos espalhados no país mas que ainda não tiveram a oportunidade de fazer suas traquinagens, não agem com vistas a uma tomada do poder. Não se pode nem sequer falar em um levante popular, porque o objetivo da maioria dos envolvidos não é promover justiça social para alguma classe, ou coisa parecida, mas simplesmente subir na vida.

Mas precisa causar tamanho terror para isso? A princípio, não. Uns roubos aqui, uns golpes ali. Alguns têm sorte, outros vão presos. Por que o terror? Por que incendiar ônibus ou metralhar ruas? Que vantagem teria o crime em incomodar a sociedade formal, se a população não se incomoda com sua existência nas comunidades carentes e a polícia a princípio não tem interesse em combater suas atividades (muito pelo contrário)?

Aí é que entram as prisões. Cansei de ouvir gente apoiando o tratamento animalesco que recebem os presos no Brasil. Afinal, “são vagabundos”, “esses bandidos têm é que se f*” e assim por diante. A lógica é a seguinte: para que possamos continuar nossa rotina, joguem os elementos incômodos nas masmorras e vamos esquecê-los.

Esse projeto funciona perfeitamente numa sociedade de escala baixa, escravocrata, latifundiária como era a brasileira, e particularmente a paulista, há pouco mais de 120 anos. Mas hoje, quando os capitães-do-mato se transformaram em policiais e os escravos se transformaram em lúmpen, o que se configura é um caldeirão sempre a ponto de explodir.

Nessas masmorras que são as cadeias brasileiras, em particular as paulistas, os ladrões de galinha já mencionados, cujo único objetivo é subir na vida, desenvolvem estratégias de sobrevivência verdadeiramente selvagens. Aprendem a odiar, a matar para não morrer, a lidar com a corrupção de carcereiros e policiais. Aprendem tudo, em suma, que verdadeiros guerrilheiros urbanos precisam saber para paralisar a vida das cidades.

Dois meses atrás, a polícia de São Paulo matou quase trezentos “suspeitos” em represália aos ataques do PCC. Como a população carcerária do Estado gira em torno dos seis dígitos, sem contar os que estão soltos, o banho de sangue mal fez cócegas na criminalidade. Sobretudo se contarmos que mais da metade das vítimas provavelmente não tinha nada a ver com o assunto. A formação do exército de reserva do crime continua a todo vapor, e detalhe: não tem vestibular.

Há muito mais a ser comentado. Espero não precisar fazê-lo, ou seja, espero que a estratégia de lidar com “a situação” se torne um pouco menos fantasiosa e pedante. Caso contrário, ainda vou ter muito pano pra manga por aqui.

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6 comentários sobre “Voltando àquele assunto desagradável

  1. paulo hg vigu disse:

    Eis a síntese da insustentável situação de SP. O nadifúndio geral. A barbárie. “Alguma coisa está fora da ordem mundial” – Compactuo e lamento com você. Abraço Poético – Navegue no riodaqui – Paulo HG Vigu

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  2. Cris disse:

    paulo, texto primoroso. há tempos que andava esperando ler algo assim, lúcido e não passional, em contraste aos textos feitos por quem está sentindo agora a água chegar na bunda e acha que pode continuar resolvendo tudo com soluções compradas na loja de R$1,99. outro dia, por ocasião dos primeiros ataques, quase fui linchada na caixa de comentários de um blog desses “famosos”, apenas porque me opus à solução “genial apresentada por um dos comentadores: exterminar os marginais ou suspéitos de o serem. simples assim. “essa gente não tem jeito.” achei uma iniciativa facista de primeira e esperneei. resultado o outro foi aclamado como “lúcido”; eu, como a idiota da vez. novos ataques vão acontecer, até que a gente consiga realmente enxergar a coisa como ela é. bj (e desculpe o desabafo!)

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  3. paulinho disse:

    Paulo,texto esclarecedor e contundente. na minha opiniã (concordo com a cris em gênero e número), algo muito ruim acontecerá em breve se cfontinuarem fazendo cadeias de depósitos de gente. se criarem um estrutura capaz de reabilitar aqueles que ainda podem nesse mundo cão serem algum dia cidadãos.abs,

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