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Seção Pipoca no Escuro: Como atingir seu sonho, segundo O Homem que Copiava

Fim-de-semana passado em um delicioso sítio do interior, a menos de cem quilômetros da praça da Sé. Um lugar onde ver estrelas à noite não dá manchete no dia seguinte, tampouco ser mordido por um borrachudo. Tudo tem suas vantagens e desvantagens. E nesses últimos dois dias, as vantagens suplantaram com folga os desconfortos.

Aproveitei para ver um filme que não tive tempo de conferir no cinema: O Homem que Copiava, de Jorge Furtado, ele mesmo, o de Ilha das Flores. Estrelam Lázaro Ramos (vendo o filme, você jura que o sujeito é gaúcho) e Leandra Leal (idem), com participações de Pedro Cardoso e Luana Piovani (e o Paulo José, no final).

É um filme divertido, com atuações excelentes, um roteiro esperto (cheio de buracos, mas e daí?) e aquela mesma linguagem que o Jorge Furtado usa sempre, funciona mas vai acabar cansando. Vale a pena ver. Mesmo assim, fiquei assustado.

O que me assustou fui eu mesmo. Algumas horas depois de subirem os letreiros, eu continuava achando o filme perfeitamente normal, sem nada a apontar de perturbador. Tomando meu lanche da noite, antes de ir dormir, com calma, rememorando momentos engraçados da trama. Só então me veio o estalo: o filme é uma transcrição perfeita do padrão moral que a minha geração está inaugurando, sem estardalhaço algum. É perturbador, mas não pretende nenhuma denúncia: ao contrário, parece até didático…

Mas vamos ao enredo: um jovem simples, morador de Porto Alegre, trabalha com fotocópias e passa suas noites desenhando e espionando uma vizinha (sim, um voyeur) pela janela de seu quarto. Ele acaba se apaixonando por ela; segue-a pela rua e entra na loja em que ela trabalha. Finge que vai comprar um presente para a mãe, mas não tem dinheiro. O que ele faz? Copia uma nota de R$ 50 em seu trabalho. Ao mesmo tempo, encontra-se num bar com uma amiga e seu pretendente. Ela se diz virgem, pronta a abrir-se para um homem que não fume e, claro, encha sua conta bancária, não pela posse do dinheiro, mas pelo luxo. Só o luxo. O cara, naturalmente, só quer saber de levar a menina para a cama, e para isso finge ser endinheirado.

Com o sucesso da falsificação de dinheiro, o protagonista é levado a copiar mais. Porém, ao descobrir que o pai de sua amada é um tarado que espia a filha pelo buraco da fechadura do banheiro, conclui que precisa de mais dinheiro, e rápido. Como fazer isso? Claro! Roubando um banco! (Na verdade, um carro-forte.) Como fazer isso? Muito simples. O melhor amigo do protagonista é um traficante de drogas. Sim, são melhores amigos, mas nada impede nosso herói de lhe passar uma nota falsificada, com a qual compra um revólver.

Ele combina com o pretendente da amiga o assalto ao carro-forte. A função do sujeito é trazer um carro para a fuga. Naturalmente, o roubo dá mais ou menos errado, e o protagonista, sem sua máscara, acaba atirando na perna de um dos guardas. Na fuga, claro: o malandro não tinha conseguido carro nenhum, e eles são forçados a pegar um ônibus.

Até aí, tudo bem. Eles pretendem fugir, mas além do dinheiro roubado, acabam ganhando na loteria. O pretendente, sem grandes méritos pelo assalto, pode dar à moça o luxo que ela tanto deseja. E ela, de fato, se entrega para ele. O protagonista, por sua vez, pode propor o casamento à amada; sai para jantar com ela e o pai. Chegando no restaurante, que surpresa: o pai é o tal guarda que levou o tiro na perna. Prisão para o sujeito? Nada disso. O pai, como todo mundo, quer a grana. E faz ameaças.

Na saída, o protagonista encontra com o amigo traficante, lembram?, aquele que vendeu a arma em troca de uma nota falsa (como se um traficante não reconhecesse uma nota falsa…). Ele tinha estado preso, mas saiu graças a amigos. E o que ele quer? Vingança? Não. A grana. Resultado: no dia seguinte, os dois grandes amigos de infância se encontram. O protagonista, que, de quase retardado, se transformou num gênio do mal, do alto de sua enorme frieza mata aquele com quem tinha passado a infância brincando; sua única companhia nos momentos de solidão. Seu único ombro amigo. Ele se sente mal a ponto de dar de ombros ao ver o cadáver.

Falta resolver o problema do pai da menina. Mas ela mesma aponta a solução: vamos matá-lo, que tal? Genial! Boa idéia! Com o uso de seus vastos conhecimentos de química, os protagonistas, sem grandes considerações morais a respeito de parricídio e outras picuinhas, instalam uma altamente complexa bomba no apartamento do sujeito.

E pronto. Take the money and run. O final é uma idílica cena no alto do Corcovado, em que a mocinha encontra o homem que gostaria que fosse seu pai, e os bravos brasileiros aproveitam ao sol seu dinheiro arduamente conquistado.

Lindo, não? Pois saibam que eu só me dei conta de quão assustador isto pode ser depois de horas em que eu apenas aproveitei as boas piadas do filme. Isso significa que também estou perdendo a chamada “bússola moral”? Será que também acredito que, para realizar “seu sonho”, as pessoas têm o direito de matar, roubar, atirar, fraudar, espionar, enganar e trair? Será que eu mesmo também acho isso adequado? Será que eu admito essas atitudes como imperativos categóricos morais como diretrizes para a sociedade do futuro?

Como diria um cínico que conheci: “filme bom é aquele que faz pensar”.

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4 comentários sobre “Seção Pipoca no Escuro: Como atingir seu sonho, segundo O Homem que Copiava

  1. Leonel disse:

    Eu vi esse filme. Gostei pra carai!!! O cara tah certo, manu. Se eu tivece a chance de fazer dinhero falso, eu fazia na ora, porra!!! A burgesia me esfola o dia intero, pq é q eu num vo mi vingah? Eu só tenho medo de ir preso, esses coxinha fdp num daum arrego naum, bro. Mais porra, a gente naum tem escola decente, naum tem oportunidade de cresceh na vida, sacoh??? O unico jeito de subir na vida eh assim, na malandragem. Ou entaum virar pagodero ou jogador de futebol. Aih a mulherada cai em cima, neh!!!! Mais quando nois eh pobre assim, nem pensar! E voce aih, querendo da uma de bonzinho. Se liga, ô cuzaum! Vai nas perifa veh como eh a vida de verdade, valeu??

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  2. Antonia disse:

    Obviamente não concordo com o comentário acima. Tmabém vi o filme e tambpem senti o estranhamento depois. Tempos difíceis. Mas é um filme que faz pensar, sem dúvida.

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    • Silvana disse:

      Finalmente alguém escreveu alguma coisa parecida com o que eu pensava do filme. Fui assisti-lo no cinema e ele mais me incomodou do que agradou. Mas foi logo em seguida, não demorei para saber do que eu não gostei. Eu gostei do início do filme. Acho que o roteiro se perdeu no meio do caminho. Perdeu o tom inicial, aliás saiu completamente do tom. Adoro Lázaro Ramos, Leandra Leal e Pedro Cardoso, mas esse filme eu não consegui digerir. Primeiro, achei que estava sendo conservadora por achar absurdas demais as soluções dos conflitos, amorais demais. Depois admiti: sou conservadora sim, pois eu não consigo compactuar com as atitudes dos protagonistas. Não houve identificação e perdi a simpatia inicial por André no decorrer da história. Ao contrário do Diego, eu não achei tudo normal em momento algum. Fora estas questões morais, há outros absurdos como a Sílvia saber que está sendo observada. Como dá pra saber que está sendo observada de uma janela de apartamento? Totally crazy. Apesar de ser um filme brasileiro, pensei assistir a um filme americano. As referências são americanizadas demais. O filme parece aquelas comédias bestas americanas de como se dar bem fazendo tudo errado. O que me incomodou foi essa perda de tom. O filme prometia uma coisa e me deu outra completamente diferente. Acho que não entendi a proposta. Não consegui embarcar na loucura, pois acho que entendi o início do filme com pretensões de lucidez. É isso! Achei o filme pretensioso. Se estou errada, contra-argumentem, mas quero argumentos concretos. Quero ver quem consegue me convencer de que esse filme é bom, pois eu achei fraco.

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  3. Pingback: Seção Pipoca no Escuro: L’enfant | Para ler sem olhar

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