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Seção País sem Futuro: UERJ

Vejo pouca comoção com o caso, ou melhor, descaso, da Uerj. É um exemplo dramático de como existe alguma espécie de conspiração para jogar o Brasil na rabeira do mundo ou nas trevas da involução. Essa universidade, cravada na Zona Norte do Rio de Janeiro, ao lado do “maior do mundo”, também vulgarmente conhecido como Mário Filho, ou Maracanã, recebe alunos do país inteiro e já produziu muita ciência boa. Tem excelentes professores, que já deveriam ser chamados de mártires, pela abnegação que precisam demonstrar em continuar lecionando numa instituição literalmente caindo aos pedaços, com reboco despencando das paredes, bebedouros estragados, salários atrasados, falta de segurança… a lista é interminável.

E por que tudo isso? Há anos o orçamento da universidade não aumenta, ao contrário do número de alunos. Claro! Com o ICMS do Estado do Rio despencando, realmente não sobra dinheiro. Seus reitores têm que dançar para mantê-la funcionando, e apesar da lenta degradação do campus, a produção científica, que é o que importa, sofreu muito menos do que se poderia esperar: ponto para eles. A UERJ tem uma característica que lhe confere uma aura especial: recebe alunos de origem mais humilde do que as nobres PUC e UFRJ, mas mesmo assim não faz feio em produção de papers e patentes.

Tudo ia muito mal, mas não mal o suficiente para o teocrático governo fluminense. Na esperança de conseguir atirar nas trevas medievais o Estado capitaneado pela outrora mais linda e brilhante cidade de nosso malfadado planeta, a governadora-tampão Rosinha Matheus resolveu atacar frontalmente o orçamento da instituição. Para tentar encaixar seu lamentável governo nas restrições da Lei de Responsabilidade Fiscal após arruinar as finanças estaduais por anos e anos (a exemplo da figura patética que é seu marido) para garantir o projeto político pessoal da família Monstro de Campos, Rosinha não hesitou um segundo sequer em cortar em 25% o orçamento da universidade.

Exatamente: o já parco dinheiro reservado à educação e pesquisa da principal universidade estadual do Rio de Janeiro foi rasgado em um quarto, mesmo já sendo insuficiente para garantir as despesas mínimas do ano.

A resposta da universidade foi imediata: cancelou o vestibular do ano seguinte. É evidente! Como receber novos alunos sem dinheiro para comprar papel ou pagar a conta de luz? O governo agora ameaça entrar na Justiça. O secretário de “educação” acusa a universidade de má gestão. É o tipo de coisa que só acontece no Brasil: a figura chegou a apontar os R$ 800 mil repassados pela Faperj como solução. Ridículo.

Que os famigerados Garotinhos queiram esmagar a parcela pensante da sociedade em que reinam como o casal Macbeth não é novidade nenhuma; quanto mais subdesenvolvido e retardado for o povo, maior será a chance de votar nos dois (e seus asseclas) e menor a chance de que apontem o dedo para a dilapidação constante e evidente do Estado. O que surpreende é a falta do apoio à universidade que o próprio Rio de Janeiro deveria oferecer ao seu patrimônio intelectual. Estudantes protestaram contra o cancelamento do vestibular, em vez de protestar contra a atitude do governo.

Onde estão as passeatas? Os protestos do DCE e da própria UNE? Mistério…

Por outro lado, podemos ver claramente como este é mais um exemplo da ausência de pensamento de longo prazo no Brasil. Por mais que a educação seja custosa ou deficitária, ela sempre dá lucro no longo prazo. Mesmo os alunos que podem ser considerados fracassados são mais produtivos quando têm um pouco mais de educação.

No caso específico das universidades, um único aluno que, por exemplo, abra uma empresa eficiente ou, melhor ainda, descubra um processo revolucionário que resulta numa patente, já compensou para o investidor, quem seja, o Estado, o que devemos entender como a população, a sociedade, você, eu e todo mundo.

O que acontece na Uerj, portanto, é uma indicação de que nosso país não tem futuro e nem pretende ter, no que depender de seus governantes e mesmo de sua sociedade.

Para falar de um exemplo mais próximo de mim: a USP. Esta que alguns ainda insistem em chamar de mais importante universidade do Brasil se torna paulatinamente uma fábrica de diplomas. São abertos cursos que dificilmente se podem chamar de universitários; a nova unidade, na Zona Leste, embora tenha o mérito de estar cravada na região mais carente da capital paulista, é um exemplo claro: forma funcionários de baixa patente sem grande expectativa de crescimento. Pior: não representou qualquer aumento de orçamento. Ou seja: com o mesmo parco dinheiro que tinha para sustentar as unidades já existentes, a USP agora precisa carregar mais uma.

Por outro lado, os professores da maior parte das faculdades (há honrosas e sufocadas exceções) não se preocupam com o desenvolvimento da pesquisa ou a qualidade do ensino. Organizados em fundações como o Incor, a Fipe, a Fia, a Fipecafi e a Fundação Vanzolini, utilizam seu tempo de professores RDIDP (ou seja, dedicação exclusiva à universidade) em pesquisas encomendadas por empresas privadas, em geral estrangeiras, que ficarão com as patentes.

Algum problema em pesquisar para empresas privadas? Não, a não ser que você seja pago pelo contruinte para se dedicar exclusivamente a uma universidade pública. Não, a não ser que você reduza sua carga de aulas para se dedicar a essas pesquisas. Não, a não ser que você deixe de realizar pesquisas que interessam ao público geral. Não, a não ser que você transforme o seu departamento na universidade ema muleta para a fundação, e não o inverso.

Para fazer mais uma das constantes comparações com a China que vemos todos os dias nos jornais, o país gigantesco de gente que anda de cabeça para baixo investe fortemente na expansão de seu sistema educacional e universitário, pesquisa e integração internacional.

E nós, como de hábito, vamos ficando para trás.

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2 comentários sobre “Seção País sem Futuro: UERJ

  1. A. Caieiro disse:

    Pô, não fala assim, eu vou prestar vestibular agora e não tenho condição de pagar uma faculdade privada… e se as públicas estão tão ruins, será que eu não tenho chance?

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  2. carolina arantes disse:

    Ô P., tenho um poema sobre o Brasil que acho que pode te interessar…vou mandar por aqui, mas se ocupar muito vc tira! Depois vc me fala o que vc achou do texto…inté!Carolina “Patriamada, salve, salve” Óh, Brasil!Donde está tao longe, olhando pra cima, vagueando perdido pelas ruas sujas?Caminha desorientadoNotícias ruins de casa, Brasil?Te vejo tao órfaosem ventre quente acarinhando o rosto,sem alguem para velar seu sono, cobrir o corpo.Dor de menino semente, abandonado.Está sozinho, Brasil?Mas você nao é mais pequeno!Estas maos grandes e ásperas há anos coçam os pelos curtos e duros da sua barba grisalha.Esta sua boca, que já foi risonha, beijou muitas loirasem copos americanos nos bares da cidade.Sua inocência nao o faz criança.A camisa que leva rasgada nao é juventude presente.Você nao é mais valente, Brasil!Você é inofensivo!Agora “a festa acabou”,nao há mais Drummond, Vinicius morreu.A bohemia virou documentário.Só você restou aqui, permaneceucansado de nada, brindando sem motivo ao esquecimento num copo vazio.E agora Brasil?A aposentadoria que nao cobre viagrao dente podre que dói no fundo da coxinha careado”Fritura faz mal ao coraçao”, você viu? Estava escrito na revista…Ora, Brasil! Voce sabia que isso poderia acontecer!Estes dias se anunciavam a cada diamas ao meio dia você despertava, Brasil!Voce nao os ouvia!Você, Brasil, era promessa de futuro!Hoje voce nao tem amigos (países nao têm amigos!)Sua casa sao os ladrilhos velhos desta construçao antiga, historias-fantasma.Amanha?Amanha nunca se sabe, companheiro. Quiça um copo de agua da pia, matando a seca boca fechada,sentado nas molas, poltronas passado futurismoExperimentando um alcaseltzer. Mais um novo remédio americano.

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