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Quanto vale uma poltrona?

Seguindo o método de muitos cientistas políticos, vamos supor um país imaginário: grande extensão territorial, população numerosa e de vastíssima origem étnica, florestas enormes, cachoeiras, indústrias, praias, rios caudalosos (belo adjetivo!), climas variados, do tropical ao mais ou menos temperado, excelente produtor de matéria-prima para os outros, inclusive no futebol.

Nesse nosso país imaginário, que confesso ser um pouco inverossímil, mas vá lá, não é isso que importa, há três companhias aéreas. A primeira é uma sobrevivente de tempos ante-diluvianos. Resistiu bravamente a choques, congelamentos, golpes militares e toda sorte de infortúnios. Suas antigas concorrentes não tiveram a mesma sorte e sucumbiram pelo caminho. Mas essa, que chegou a ser considerada uma das melhores do mundo, não resistiu sem sérios golpes: endividou-se, perdeu participação no mercado, entrou numa crise irreversível rumo ao desaparecimento.

No momento em que o nosso modelo imaginário vige, já é carta fora do baralho.

A segunda é uma companhia recente que cresceu no vácuo das antigas; vinda de uma cidade distante do interior, apoiou-se em bons e visionários gestores para crescer na hora certa. No momento em que estabelecemos o modelo, já é a maior companhia aérea do país.

A terceira segue uma onda contemporânea: as companhias de baixo custo. Cobra metade do preço das concorrentes pelo mesmo percurso, com uma idéia de serviço simples mas eficiente. Serve uma refeição mais que frugal e suas vendas se dão apenas pelo eletrônico. Não tem jornal na entrada do avião, não tem frescura nenhuma. É mais recente ainda que a segunda; aliás, muito mais. Cresce de participação a cada ano.

Vamos então à nossa análise do cenário econômico:

Suponha um indivíduo A que vai passar um final-de-semana na cidade R, saindo da cidade S. Pode escolher entre a companhia 1, 2 ou 3. Sendo um agente racional, imediatamente descarta 1, porque não sabe nem se os aviões vão levantar vôo quando chegar o momento de sua viagem.

Pesquisando na internet, descobre que só há disponibilidade de vôos de ida pela companhia 3 e, de volta, pela companhia 2. Por falta de opção, cede à necessidade de comprar cada viagem por uma empresa diferente.

Os preços são: pela companhia 3, P. Pela companhia 2, 2P.

Na ida, nada diferente do esperado em relação à companhia 3: um ligeiro atraso, nada de jornal ou frescuras, um pacote de amendoins e dois biscoitos de água e sal como refeição. A revista oficial da companhia está disponível, com algumas boas matérias para ler e outras não tão boas, mas isso é perfeitamente normal.

O vôo pousa sem maiores problemas e lá vai o indivíduo A passar seu final de semana na cidade R, distante algumas centenas de quilômetros de S.

Na volta, companhia 2. Por chegar cedo ao aeroporto, consegue vaga no vôo anterior. Excelente! O atraso também é irrelevante, afinal, um vôo marcado para as 20:02 partir às 20:09 não chega a ser motivo de reclamações.

Ao entrar na aeronave, o indivíduo A recebe das sorridentes comissárias, que não se pode chamar de aeromoças, uma revista. Jornal? Infelizmente, não temos. Vá lá, revistas também são boas. O indivíduo A senta-se em sua poltrona (23F) e se põe a ler o que tem nas mãos. Surpresa: trata-se de uma revista editada por encomenda pela maior empresa estatal, que vamos chamar de P., para fazer propaganda de uma duvidosa conquista de décadas, mas atribuída na publicação apenas ao governo em questão. N.B.: A companhia 2 não é estatal. Não pertence ao governo em questão. Pertence aos acionistas privados e a quem quer que seja o proprietário.

Seja como for, o indivíduo A, que se interessa por política mas não se envolve em questões partidárias, põe de lado a propaganda que tinha nas mãos e busca alguma outra leitura. Não encontrando mais nada, nem revista oficial da companhia, salvo talvez o manual de salvamento em caso de queda na água, é obrigado a olhar pela janela.

Mas mesmo sua contemplação do mundo exterior é interrompida: televisores estrategicamente postados ao longo do corredor são baixados e transmitem uma série de propagandas: da empresa S, avícola, da empresa P já mencionada, da bala H, que faz espirrar, e assim por diante. O indivíduo A, que queria ler e não pôde, que queria olhar para as nuvens e não pôde, começa a se irritar. Tira do bolso uma bala que não é H e começa a mascá-la. O papel, pretende enfiar no pequeno compartimento destinado ao lixo que existe em sua poltrona, mas qual não é sua surpresa ao vê-lo já cheio de papéis de bala: Marca H, marca X, Y, Z, W e todas que se possa imaginar.

O indivíduo A expressa para a mulher ao seu lado, ou “indivíduo N.”, como poderíamos chamá-la, contrariada mas não tão irritada quanto ele, o quando lhe é desagradável pagar o dobro do preço por um serviço pior. Ela concorda e tenta consolá-lo. Aponta o fato de que as poltronas do avião em que estão são muito mais largas e confortáveis que as da companhia 3.

É verdade, ele pensa. E quanto valem essas poltronas?

Em seguida, chega a refeição: um sanduíche menor que a palma da mão do indivíduo A., embora maior do que a palma da mão do indivíduo N. Não há opção de sabores, e o sabor desse sanduíche é repugnante para o indivíduo A. O indivíduo N., assim, tem a oportunidade de comer dois sanduíches, não que isso vá saciá-la.

Pousam em S., cidade feia e nebulosa. Fazendo as contas, A. percebe que pagou 2P para uma empresa e P para a outra, ficou satisfeito na segunda e irritado na primeira.

Mas ah, as poltronas são mais largas.

Analisando nosso modelo imaginário, com empresas imaginárias, indivíduos imaginários, um país imaginário, empresas imaginárias e até marcas de produtos, todas imaginárias, resta a pergunta: qual companhia conquistou o cliente? Qual o repeliu?

Belo case, não? E terminamos com a pergunta do título, novamente: quanto custou ao indivíduo A. a largura das poltronas da companhia 2?

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Um comentário sobre “Quanto vale uma poltrona?

  1. A. de Campos disse:

    É, eu não viajo de avião, mas o pouco de conhecimento que tenho de administração de empresas faz eu achar que o cliente tem que ser tratado na palma da mão, né? Quer dizer, caramba, é a gente que tá pagando, então botar propaganda não é legal. Do governo, então…

    Curtir

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